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  • Foto do escritorJornal O Cola

Noite de Reis dos Tempos Modernos


No dia 26 de janeiro, estreia no Teatro da Trindade INATEL Noite de Reis de William Shakespeare, uma adaptação e encenação de Ricardo Neves-Neves. A peça estará em cena até 19 de março.


Imagens de Ana Caetano


Com um toque de modernidade, porém sem se abstrair das suas origens shakespearianas, Noite de Reis proporciona aos seus espetadores grandes momentos de animação e fascínio. Apesar do guião original datar o ano 1600, a adaptação de Ricardo Neves-Neves tem a capacidade de envolver qualquer pessoa na ação face à mistura do tradicional com o contemporâneo, presente sobretudo na música e nos figurinos. Composto por um guarda-roupa elegante da autoria de Rafaela Mapril e pelas maquilhagens sensacionais de Dennis Correia, toda a caracterização das personagens deixará o público seguramente extasiado. A música nesta peça tem um papel essencial, uma vez que, da mesma forma que cativa os espetadores na ação, evidencia as relações entre as personagens providenciando, assim, um ambiente inigualável ao espetáculo. A música concedida pela orquestra, dirigida por Mrika Sefa, alude não só ao estilo da época, como inclui ainda temas recentes, como “I Will Survive” de Gloria Gaynor.


Inúmeros pontos marcam a vertente humorística da peça ao longo da ação, assim como os diálogos jocosos, a excentricidade das personagens e, essencialmente, o conflito amoroso estabelecido entre algumas das mesmas. Orsino é um poderoso duque de Ilíara que está enamorado de Olívia, uma senhora da nobreza incapaz de corresponder a este amor. Todavia, esta apaixona-se por Cesário, que é, na verdade, Violeta, uma mulher disfarçada de homem. Violeta, por sua vez, tem um interesse particular pelo seu amo, o duque Osiro, que a conhece como Cesário. O enredo gira em torno deste triângulo amoroso que desencadeia outras situações distintas de cariz satírico, como partidas e batalhas. Além disso, são apresentados monólogos singulares e outras cenas faceciosas que certamente colocarão um sorriso no espetador.


Contudo, é importante assinalar que Noite de Reis desenvolve ainda assuntos que causarão impacto no lado emocional do público. Ao longo do espetáculo, são apresentadas peripécias que retratam o início de paixões vibrantes, ao mesmo tempo que é revelada a dor e deceção que o ser humano experiencia em virtude das traições cometidas pelos que nos rodeiam, causadas pela ambição e desonestidade.


Composto por nomes como Marco Delgado, Renato Godinho e Manuel Marques, entre outros, o elenco integra apenas atores do sexo masculino. Esta conceção de ter exclusivamente homens a interpretar qualquer personagem, independentemente do seu género, está relacionada com uma tradição que remonta ao tempo da Grécia Antiga. Devido ao papel da mulher na sociedade, não lhe era permitido atuar em peças de teatro. Esta conduta estava presente em outras regiões durante diferentes períodos históricos e a Inglaterra no tempo de Shakespeare não foi exceção. De acordo com o encenador e dramaturgo Ricardo Neves-Neves, a preservação deste costume em Noite de Reis tem como objetivo «brincar com o disfarce que já está sugerido no texto»: na encenação, temos Cesário, uma mulher interpretada por um ator do sexo masculino, que, em diversos momentos toca em Olívia, cuja personagem é também encarnada por um homem. Estas camadas deverão levar o público a refletir sobre o que, de facto, lhes está a ser exibido. Estarão a ver dois homens ou duas mulheres, quando Violeta e Olívia tocam na mão uma da outra? Assim sendo, a peça alude à perspetiva política e social das questões de género, um tema que, nos dias de hoje, é discutido com frequência.


Em suma, a particularidade de Noite de Reis provém do facto de se debruçar, de um modo cómico excecional, sobre tópicos delicados, como o amor não correspondido, as vinculações românticas confusas e as questões de género. Para além da sua abordagem humorística, a peça pretende ainda desconstruir as ideias sociológicas e culturais enraizadas na sociedade relativamente ao conceito de identidade e emoções. Tendo em conta estes aspetos e a sua natureza, acreditamos que a fenomenalidade deste espetáculo não irá desiludir e, por isso, recomendamo-lo a todes.


Texto de Matilde Mala

Editado por Sofia Lopes

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