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Carta ao Pai

  • Foto do escritor: Gabriel Goto
    Gabriel Goto
  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

Editado por: Nuno Brandão

Meu querido pai,


A sua ausência me ensinou mais do que o senhor tinha direito. Me afetou mais do que eu deveria ter deixado. Mas como eu, criança, poderia evitar um sentimento quase que de culpa, sendo que a culpa era toda sua?


Depois de quase quinze anos, me peguei, numa madrugada qualquer, pesquisando sobre o seu acidente. Nenhuma das notícias que achei sobre o dia 23 de abril de 2010 eram tão completas como eu esperava. Ainda me lembro da edição do jornal daquele dia e até uma foto sua havia. Agora percebo que muito de você eu já me esqueci. A sua voz já é quase muda, sinto que em breve nem mesmo teus suspiros serei capaz de lembrar.


Você me deve uma infância inteira, um mundo que me foi negado pela sua incompetência, um direito de morrer que o senhor não possuía. Me pergunto quão diferente seria a nossa vida se, há 25 anos, em dezembro de 2000, você tivesse feito a coisa certa.


Nos lances capitais, o senhor quase sempre se equivocou e fez a pior escolha possível e, lamentavelmente, no dia da sua morte, morreu como inocente. O culpado fugiu da cena do crime, nem sei dizer se chegou a ser encontrado, mas ele matou você e mais uns quatro coitados que voltavam cansados do trabalho.


Apesar de tudo, não posso deixar de te amar. Contudo, já não choro quando lembro do senhor. Costumavam meus olhos encher-se de lágrimas com a simples menção do teu nome ou uma memória sua que me surgia na mente. Hoje, enquanto escrevo para o senhor, estou impassível. Respiro fundo e te perdoo, como tantas outras vezes já te perdoei.


A minha vida tem a obrigação de ser melhor que a sua, porque é isso que um filho tem de fazer com um legado inacabado de um pai incompetente: amá-lo e superá-lo.


Se passaram quinze anos, mas o vazio continua o mesmo do seu velório. Já não choro, é verdade, mas há uma tristeza grudada no meu peito que nunca mais saiu. Seus netos saberão muito pouco sobre o senhor, porque eu mesmo só consigo me lembrar de duas ou três histórias suas. Temo que, quando eles nascerem, tudo o que saberão do senhor serão datas frígidas encontradas numa lápide.


Por isso, escrevo esta carta. Para que saiba que ainda me lembro de uma coisa ou outra, que não tenciono esquecer tão rapidamente da nossa última conversa e que herdei de ti a mesma forma de andar — embora não saiba como isso seja possível, é o que todos da família se assustaram ao mencionar alguma vez. Tenho em mim um pouco de ti. O sangue nômade do senhor que nunca parou em lugar algum, mesmo quando se tornou pai, pois não seria você se ficasse. 


Eu também sou ausência, também sou partida. Partido ao meio, sinto que a vida já me foi mais justa. Não sei se onde me encontro é o lugar certo, mas me sinto feliz, incompleto, porque por sua culpa assim sempre serei. Mas me sinto feliz e talvez isso seja a única coisa que importa agora.


Até logo, senhor. Não há nada a temer. A primavera chegou, as temperaturas voltarão a subir e o verão trará dias mais agradáveis. O senhor adoraria conhecer onde moro e os lugares que já visitei e espero que em outra vida tenha a oportunidade — e o direito — de ter a vida que eu tive. Espero também que eu tenha uma ainda melhor, pois ninguém merece ter azar duas vezes seguidas.

 
 
 

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