O vinho tinto tinge
- Clara de Freitas
- 3 de mar.
- 1 min de leitura
Editado por: Maria Rodrigues
O vinho tinto tinge a roupa. Tal sempre me foi ensinado pela minha mãe, mas nunca fui ensinada a bebê-lo com cuidado.
Fui ensinada a tirar a mancha.
Despi a mesa da toalha tingida de vermelho sanguíneo. Tinha posto a mesa de lavado ontem.
Limpei a cena do crime antes de atirar a toalha para dentro da banheira.
De repente, bateram à porta. Contrariada, saí da casa de banho e escondi os fragmentos da garrafa partida.
Arranjei o cabelo e abri a porta. Após puxar a maçaneta da velha porta pesada, fui confrontada pela minha própria figura, pelos meus pés descalços e pelo meu vestido curto.
Os meus próprios olhos olhavam fixamente para mim.
Era um espelho.
Os meus olhos estavam vermelhos, a minha cara cansada e coberta por uma fina camada de suor e o meu cabelo caía das tranças que fizera
cuidadosamente naquela manhã. Estava idêntica ao meu pai. Assustei-me.
Nunca me ocorrera o porquê de a minha mãe, uma mulher que não bebia, saber tanto sobre nódoas de álcool. Ao olhar para mim, ao olhar para o meu pai, percebi que toda a sua vida fora passada a limpar as nódoas de vinho tinto de um homem. Recusei-me a olhar para ele novamente.
Fechei a porta e destruí as minhas tranças — eram demasiado inocentes. Para além disso, já não precisava de ter o cabelo atado. Já não havia trabalho a fazer. Eu já ia tarde. A toalha já estava tingida de vermelho.
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