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  • Foto do escritorJornal O Cola

Crise Académica de Coimbra de 1969

Por Dário Fernandes
Editado por António Santos

Em homenagem aos nossos colegas de Coimbra que lutaram corajosamente pela democratização do ensino superior e contra o Estado Novo.


Celebrou-se, no dia 17 de abril, 54 anos da efeméride que marcou o início da Crise Académica de Coimbra, em que os estudantes da Universidade de Coimbra, descontentes com o regime e com a situação que se vinha a viver no seio da Academia portuguesa, aproveitaram a visita do Presidente da República, Américo Thomaz, e de alguns membros do governo à Universidade para manifestarem as suas insatisfações e reivindicações, iniciando assim meses de luta e perseguições.


17 de abril de 1969. Portugal estava sob a alçada da ditadura e em plena Guerra Colonial. O clima de insatisfação vinha-se a alastrar e era geral em todo o país. Em Coimbra, era inaugurado o departamento de Matemática da Universidade de Coimbra e, para o discurso de inauguração, havia sido convidado o Presidente da República, Américo Thomaz, acompanhado por alguns membros do governo de Marcelo Caetano. Esta ocasião constituía, aos olhos da comunidade estudantil, a abertura de uma janela de oportunidade perfeita para se fazer ouvir e dar voz ao descontentamento e a algumas das suas reivindicações. Os motivos para esse descontentamento estavam relacionados com o universo do ensino superior e também com vários aspetos da vida política, económica e social que se vinham arrastando ao longo dos anos e levavam a um aumento do desgaste e contestação do regime, que já vinha a ser visto como anacrónico e ultrapassado. A supressão da liberdade de expressão, a Guerra Colonial, o imobilismo político e a pobreza que se vivia no país são apenas alguns exemplos. Exigia-se mudança!


À chegada da comitiva do Presidente da República e dos membros do governo que o acompanhavam, aguardava-os, na entrada do novo edifício prestes a ser inaugurado, uma receção “calorosa” por parte de uma multidão de estudantes que traziam consigo alguns cartazes e tarjas com palavras de ordem e de desagrado, dando prelúdio ao que se seguiria nesse e nos seguintes dias. Já dentro do edifício, seguiu-se então o discurso de inauguração de Américo Thomaz e, no final deste, Alberto Martins, presidente da Associação Académica de Coimbra, protagonizou o famoso episódio onde pediu, em nome dos estudantes da Universidade de Coimbra, que lhe fosse concedida a palavra. O seu pedido foi recusado. O discurso prosseguiu e, no final, a saída da comitiva foi acompanhada por uma onda de contestação dos estudantes, desagradados com o que acabara de se suceder no interior do edifício.


Mais tarde, nesse mesmo dia, Alberto Martins é detido. Ele passa a noite na cadeia e é libertado no dia seguinte. A sua detenção não teve o efeito que, provavelmente, as autoridades pretendiam (de intimidação e persuasão, com o objetivo de impedir possíveis ações insurrecionais), mas sim o seu oposto, acentuando ainda mais a hostilidade dos estudantes para com o regime. A partir daí o descontentamento passou à ação e iniciaram-se meses de luta. Esta luta ganhou força, sobretudo nas greves aos exames e em manifestações espontâneas pelas ruas da cidade. A greve aos exames constituía um risco imenso para quem a ela aderisse, visto que a reprovação aos exames, inerente à greve, poderia significar a mobilização dos reprovados para a Guerra Colonial. Não será por isso exagerado assinalar a coragem e resiliência dos grevistas. A greve foi um sucesso, com a maioria dos estudantes - cerca de 87% - a aderirem à mesma, mesmo com as perseguições e buscas de que foram alvos e do risco, já referido, de serem enviados para a Guerra Colonial.


A estas iniciativas somou-se ainda o episódio da final da Taça de Portugal de futebol, no Estádio do Jamor, em Lisboa, onde, a 22 de junho, Benfica e Académica de Coimbra se defrontaram. O resultado não foi favorável à equipa de Coimbra, que foi derrotada por 2-1, mas não será isso o mais relevante a ser retirado, pois foi o jogo disputado fora das quatro linhas que teve maior importância e que começou com a ausência nas tribunas do estádio, pela primeira vez, do Presidente da República, que até então, tinha comparecido sempre na fase final da competição. Também a transmissão televisiva havia sido cancelada pela primeira vez, de forma a conter o mediatismo do evento, que não era favorável à imagem do regime. Por último, no final do jogo, os jogadores da equipa de Coimbra colocaram capas negras aos seus ombros, em demonstração de solidariedade para com os estudantes da cidade, que haviam afluído em massa para assistir àquela partida.


A valentia e a irreverência dos estudantes que fizeram parte da Crise Académica de 1969 não foi suficiente para alcançar as conquistas reivindicadas nem para fazer cair o Estado Novo, mas contribuiu, com certeza, para a aceleração do seu declínio e o aumento da contestação. No contexto atual, de maior liberdade política, de expressão e associativa em relação aos nossos colegas de 69, há ainda muito por conquistar. A democratização do ensino superior, uma das bandeiras dos estudantes de Coimbra de 1969, ainda tem um longo caminho a ser percorrido e cabe-nos a nós, que acreditamos num ensino superior mais acessível e ao alcance de todos, continuar o legado da luta a que os nossos colegas de 1969 deram um enorme contributo.


Para a memória fica o legado da luta estudantil e o exemplo de coragem, resiliência e solidariedade dos nossos colegas que lutaram destemidamente contra o Estado Novo e pela democratização do ensino superior.



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