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Soy Mayor, No Idiota

Por Leonardo Fernandes e Sofia Lopes
Editado por António Santos

No início de 2022, Carlos San Juan, um médico reformado de 78 anos oriundo de Espanha, fundou o movimento “Soy mayor, NO idiota” (em português, “Sou idoso, não idiota”). Iniciou a sua luta com uma simples petição em change.org, a maior plataforma online que visa a mudança no mundo.


O pensionário espanhol apercebeu-se de que, após a pandemia, a maior parte dos serviços bancários permaneceram à distância, sendo necessário o uso de equipamentos tecnológicos, como um computador, e acesso à internet para serem efetuados. Com a migração destes serviços para o domínio da world wide web, assistiu-se a uma maior exclusão de um certo coletivo de clientes, como os mais idosos, que, na sua maioria, não são ávidos utilizadores da internet, ao contrário dos jovens.


Na petição, San Juan escreveu: «Tenho quase 80 anos e entristece-me muito que os bancos se tenham esquecido das pessoas idosas, como eu. Agora, tudo é pela internet… e nem todos entendemos de tecnologias. Não merecemos esta exclusão».


Complementarmente, Carlos lamentou o fecho de várias sucursais bancárias pelo seu país, o que obriga à utilização de métodos pouco acessíveis para aqueles que sentem dificuldade em acompanhar o avanço tecnológico ou que sofrem de problemas de mobilidade: «Não param de fechar balcões, alguns multibancos são complicados de usar, outros avariam e ninguém responde às tuas dúvidas. Há operações que apenas se podem fazer online… E, nos poucos sítios onde existe atendimento presencial, os horários são muito limitados. Tem de se marcar previamente por chamada, mas ninguém atende. Acabam por te redirecionar para uma aplicação que, mais uma vez, não sabemos utilizar ou mandam-te para uma sucursal longínqua a que, talvez, não tenhas como chegar. (…) Muitas pessoas idosas estão sozinhas e não têm ninguém que as ajude. Outras muitas, como eu, querem continuar a ser o mais independentes possível nesta idade».


Porém, o fecho de sucursais e a transladação de serviços presenciais para os ciberespaços não foram os únicos motivos que instigaram San Juan a fundar o movimento. A forma de tratamento prestado aos seniores revoltou igualmente o pensionário, confessando ter-se sentido várias vezes humilhado por não saber utilizar a aplicação do banco de que é cliente e ter assistido a situações similares para com outras pessoas idosas: «(…) Falaram comigo como se fosse um idiota por não conseguir completar uma operação na aplicação. E eu vi esse maltrato dirigido a outras pessoas. Dói muito sentirmo-nos assim. Nós, idosos, existimos, somos muitos e queremos que nos tratem com dignidade. Só pedimos que existam secções nas sucursais nas quais deixem de nos excluir».


No final da petição, Carlos San Juan apontou para os bancos que operam em Espanha e reivindicou-lhes um «atendimento mais humano» para com os membros idosos da sociedade espanhola, «sem entraves tecnológicos» e «com mais paciência».


Um mês depois da iniciativa, em fevereiro, a petição contava com 647.950 assinaturas e atingiu o que pretendia: a atenção dos bancos, a pressão do governo e a mudança.


A ex-ministra da Economia e vice-primeira-ministra de Espanha, Nadia Calviño, entrou em contacto com o fundador deste movimento e, juntamente com a Associação da Banca Espanhola, assinaram um protocolo que procura uma maior inclusão financeira. Nesse protocolo, encontram-se algumas medidas a cumprir por parte dos bancos, como a ampliação dos horários de atendimento presencial, a reparação de multibancos fora de serviço dentro de dois dias úteis, a alteração das aplicações a nível de acessibilidade, como uma maior simplificação dos menus e aumento do tamanho de letras, a realização de seminários de educação financeira ao coletivo de clientes mais idosos, entre outras.


Face a isto, o pensionista espanhol sentiu-se extremamente satisfeito, dado que «era difícil, sim, mas conseguimos! E isto demonstra que os cidadãos, se se unirem, podem ter muita voz e que devemos continuar em frente para que nos escutem. Comecei esta petição porque me doía muito ver tantas pessoas desatendidas e a sofrerem. Hoje, sinto que uma parte das suas vidas vai melhorar e (…) tudo o que veio de esta petição, fê-la valer a pena».


Esta história ganha especial relevância em Portugal, quando olhamos para o facto de que somos uma população em erosão demográfica. Os dados mais recentes da Eurostat dizem-nos que, de todos os estados-membros da União Europeia, Portugal é aquele cuja idade média aumenta mais rápido.


A idade média dos portugueses, que é de 43,1 anos de idade, é ultrapassada, na União Europeia, apenas pelos valores da Alemanha e Itália (46 e 46,3 anos). Já a idade mediana, 42,6 anos, ocupa o quinto lugar dos 27 estados-membros. Desde 2012, os portugueses envelheceram em média 4,7 anos. No mesmo período, os espanhóis envelheceram 4,1 anos.


Os números de nados-vivos contrastam com a tendência da nossa idade média: com 83.915 nascimentos e 124.618 mortes, passámos a ter, em 2022, menos 40.703 portugueses. Tem sido uma situação recorrente que levou a uma redução percentual da nossa população em 2,1% desde 2011. Os censos contam agora 10.343.066 portugueses; 12,9% com menos de 14 anos e 23,4% com mais de 65 anos. A esperança média de vida é de 84,3 anos.


O estudo “Bases sociais do voto nas legislativas de 2022”, desenvolvido pelos sociólogos políticos Pedro Magalhães e João Cancela, fornece-nos uma perspetiva interessante sobre as ramificações desta questão. O estudo permite compreender que a população sénior do nosso país é aquela que mais usufrui do direito universal ao voto. Tanto é que o Partido Socialista, eleito com maioria absoluta e representado por 120 de um total de 230 deputados, obteve 51% dos seus votos de eleitores com mais de 54 anos e 27% de eleitores com menos de 25.


Analogamente, diz-nos a PORDATA que a taxa de abstenção em Portugal atingiu um total de 48,6%: cerca de 42% dos portugueses residentes e 88,6% dos portugueses emigrados não votaram. Em Portugal Continental, mais de 33% dos votantes tinham 54 anos ou mais. Estes constituem cerca de metade dos votos no partido que tomou posse na Assembleia da República: 1,2 milhões.


Assumindo a perspetiva do movimento “Soy mayor, NO idiota”, podemos, quiçá, perguntar em que moldes qualitativos vive a camada demográfica da população que maior peso teve nas últimas eleições legislativas.


Nesse contexto, convém, porventura, analisar o grau de literacia digital dos nossos seniores e as dificuldades encontradas nos esforços engendrados para a sua maior inclusão.


Num artigo publicado em abril de 2022, o Portal da Queixa dá-nos a conhecer o facto de que apenas 8% das pessoas com mais de 65 anos recorrem a esta plataforma para expor as suas reclamações e acrescenta ainda que «(…) isto não significa que estejam bem informados (…) para perceber uma tentativa de burla». Esta é a realidade de quem encontrou o mundo digital na meia-idade. O Portal da Queixa diz ainda que Portugal está em 3º lugar dos países da UE com maior número de idosos sem qualquer tipo de acesso à Internet; dos que acederam, apenas 44% têm entre 65 e 74 anos.


E fora da realidade digital, os nossos seniores vivem? Ou sobrevivem?

A 20 de fevereiro de 2023, Dia Mundial da Justiça Social, a Associação Europeia de Sociologia (AES), alertou-nos para o facto de que Portugal é o 8º país da União Europeia com maior risco de pobreza e exclusão social e que mais de 20% da população está em situação de vulnerabilidade social e económica. Diz-nos a AES que «entre os mais vulneráveis estão as famílias com filhos, os idosos que moram sozinhos e os desempregados (…)». Dos idosos que moram sozinhos, segundo os censos, 44.500 vivem em situações de isolamento ou de extrema vulnerabilidade - situação agravada tanto pela pandemia, como pela inflação.


Isolados ou desamparados?

Sabendo que os nossos idosos são iletrados no mundo digital e isolados no mundo real, podemos perguntar em que amplitude e com que gravidade encontramos casos que nos alertem para a sua deserção por parte de elementos que os conectem à vida social, nomeadamente a família. É no âmago deste núcleo social que se podem sistematicamente encontrar casos de completa renúncia de cidadãos idosos por parte dos seus próprios pares.


Exemplo disto são os relatos prestados pelos hospitais de São João e Santa Maria, ainda em dezembro de 2022. Nestes relatos, dá-se conta de um total de 83 idosos que passaram o Natal sozinhos em camas de hospital por não terem quem os acolhesse ou para onde ir.


Entre o abandono e a violência, que venha a Nação e escolha!

Ironicamente, a iliteracia digital, a depauperação económica, o declínio das reformas, o aumento da inflação, a normalização do abandono e a recorrência da deserção não são as maiores ameaças para os nossos idosos, se olharmos para a sua situação de um perspetiva analítica. A razão para isso é simples.


Numa divulgação quase simultânea à dos relatos dos hospitais de São João e Santa Maria, a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro advertiu-nos para a realidade vivida pelos idosos de 6 lares em Viseu. No estudo “Bullying em Contexto Institucional de Pessoas Idosas”, a investigadora Ana Catarina Reis reuniu dados que lhe permitiram concluir que os funcionários dos lares desta região exibem constantemente comportamentos agressivos para com os utentes. Há uma incidência de abuso verbal de 100% e uma incidência de abuso físico de 33%.


Estes dados expõem uma realidade de desistência passiva para com os nossos idosos. Pior do que isso: desvendam contextos de agressividade ativa para com os nossos membros mais frágeis.


E agora?

Sabendo aquilo que agora sabemos, consideremos a velocidade com que a tecnologia altera as áreas dos serviços sociais e económicos, assim como a própria realidade: é muito provável que estejamos na iminência da exclusão social dos nossos cidadãos mais velhos. Em Espanha, Carlos San Juan clamou “Soy mayor, NO idiota”. Em Portugal, falta ainda saber o que guarda o presente para quem votou no nosso futuro.


Notas de Rodapé:

1Base de Dados Estatísticos da União Europeia

2Base de Dados de Portugal Contemporâneo


Referências bibliográficas:

Documento de Firma de La Actualización Del Protocolo Estratégico Para Reforzar El Compromiso Social Y Sostenible de La Banca. 2022. https://s2.aebanca.es/wp-content/uploads/2022/02/protocolo-estratgico-para-reforzar-el-compromiso-social-y-sostenible-de-la-banca.pdf.


Euronews. 2022. “‘I’m Old, Not Stupid’: Spain’s Elderly Criticise Online Banking.” January 26, 2022. https://www.euronews.com/2022/01/26/i-m-old-not-stupid-spain-s-elderly-criticise-online-banking.


Fernandez, Mário. 2022. “‘Soy Viejo, Pero No Idiota’: El Valenciano Carlos Pide Que Los Bancos Atiendan En Persona a Los Mayores.” El Español. January 18, 2022. https://www.elespanol.com/reportajes/20220118/no-idiota-valenciano-carlos-atiendan-persona-mayores/643435905_0.html.


Press, Europa. 2022. “‘Me Siento Apartado Por Los Bancos’: Un Ciudadano de 78 Años Recoge 100.000 Firmas Para Que Le Atiendan Presencialmente.” Www.europapress.es. January 13, 2022. https://www.europapress.es/comunitat-valenciana/noticia-me-siento-apartado-bancos-ciudadano-78-anos-recoge-100000-firmas-le-atiendan-presencialmente-20220113183926.html.



1 Natália Faria. “Portugal está a envelhecer a um ritmo mais acelerado que os restantes países europeus”. Público, Fevereiro 22, 2022. https://www.publico.pt/2023/02/22/sociedade/noticia/populacao-portugal-envelhecer-ue-revela-eurostat-2039817


2 Magalhães, Pedro. “Bases sociais dos votos nas legislativas de 2022. pedro-magalhaes.org, Fevereiro 17, 2022. https://www.pedro-magalhaes.org/bases-sociais-do-voto-nas-legislativas-de-2022/


3 PORDATA, “Taxa de abstenção nas eleições para a Assembleia da República: total, residentes em Portugal e residentes no estrangeiro”. Participação eleitoral. Última modificação em 23 de Março de 2022. https://www.pordata.pt/Portugal/Taxa+de+absten%C3%A7%C3%A3o+nas+elei%C3%A7%C3%B5es+para+a+Assembleia+da+Rep%C3%BAblica+total++residentes+em+Portugal+e+residentes+no+estrangeiro-2208


4 Portal da Queixa, “A literacia digital está a chegar aos mais idosos?”. Direitos do consumidor. Última modificação em 11 de Abril de 2022. https://portaldaqueixa.com/news/literacia-digital-idosos


5 “No Dia Mundial da Justiça Social, tom é de preocupação com o futuro”. Sic Notícias Fevereiro 20, 2023. https://sicnoticias.pt/pais/2023-02-20-No-Dia-Mundial-da-Justica-Social-tom-e-de-preocupacao-com-o-futuro-9918d0a2


6 Inês Dias. “Falta de apoios sociais e ‘esquecimento’ das famílias deixa idosos abandonados”. Diário de Notícias. Dezembro 24, 2022. https://www.dn.pt/sociedade/falta-de-apoios-sociais-e-esquecimento-das-familias-deixa-idosos-abandonados-15539756.html


7 “Práticas de ‘bullying’ entre idosos em lares aumentam no Natal”. Diário de Notícias / Lusa. Dezembro 21, 2022. https://www.dn.pt/sociedade/praticas-de-bullying-entre-idosos-em-lares-aumentam-no-natal-15526704.html



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