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Lar Longe de Casa

  • Foto do escritor: Jornal O Cola
    Jornal O Cola
  • 17 de jun. de 2023
  • 2 min de leitura

Atualizado: 19 de jun. de 2023

Por Laura Gouveia
Traduzido por Laura Gouveia

«É preciso sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não saímos de nós.»

Saramago



Não me lembro da primeira vez que aterrei na Madeira. A minha ligação com a ilha começou quando eu era demasiado pequena para realmente perceber onde estava.


Trauma, dor, raiva. A minha relação com as minhas raízes nunca foi linear ou fácil. Havia muita negatividade associada a esse meu lado, pelo que tentei evitá-lo durante muito tempo. Agora compreendo que não se pode verdadeiramente escapar a si próprio ou às suas origens. Quer queiramos quer não, esse lado de nós virá sempre ao de cima. Neste caso, estou extremamente grata por isso ter acontecido.


Compreendo profundamente como pode ser útil escrever sobre isto, mesmo quando sabemos que a pessoa a quem nos dirigimos nunca irá ler. Para encontrarmos paz em nós próprios e na nossa identidade. Fui prejudicada por alguém que não foi capaz de estar presente da forma que eu precisava. A vida foi suficientemente cruel para tornar impossível que o meu pai fosse uma boa influência para nós. Por isso, ignorei as suas raízes. Era o seu lar, não o meu. Eu não tinha nada a ver com a ilha.


No entanto, a Madeira conquistou-me na mesma. Foi apenas em 2019 que me reconciliei com a minha herança, aceitando que uma parte de mim pertence àquele pedaço de terra rodeado pelo imenso mar. Surpreendentemente, não só me senti em paz com isso, como também me senti extremamente realizada e encontrei ali uma parte de mim que faltava. Não uma pessoa, não um lugar, mas mais um sentimento geral de pertença e plenitude.


Cheguei à conclusão de que descobri (ou aceitei) o meu amor pela ilha pouco tempo depois de ter descoberto o meu amor por mim própria e pela vida em geral. Depois disso, os dois continuaram a crescer juntos e a ajudar-se mutuamente. Quando um deles faltava, o outro continuava presente. O amor floresceu dentro de mim como uma bela estrelícia. Brilhante, forte e resistente a todas as adversidades. Por isso, sinto-me muito calma e segura lá. E, apesar de estar longe durante grande parte da minha vida, também sinto paz em saber que posso lá ir em qualquer altura. Que a ilha me espera e está sempre lá, inalterada, quando eu quiser voltar.


Há algo de verdadeiramente belo em ter uma casa longe de casa. Sentir que se pertence a um lugar onde não se existe diariamente. E acho que essa beleza é ainda mais impactante quando nos sentimos assim numa ilha. Ao escrever estas palavras, consigo sentir a brisa morna a brincar com o meu cabelo e sentir o cheiro do oceano, ouvir as ondas e os pássaros. Nenhum outro sítio tem o mesmo mar, cor e atmosfera vivaz.


Numa das últimas vezes que visitei a Madeira, apercebi-me que, por vezes, é possível ver toda a ilha a partir do avião, alguns minutos depois de descolar. Nesse momento, houve um clique em mim. Ali estava ela, quase como um postal. A totalidade da ilha. Casa através de uma pequena janela de avião. Era como ver um reflexo, uma continuidade de mim mesma. Mas depois perde-se entre o oceano e as nuvens e perguntamo-nos quando voltamos e nos encontraremos novamente.



 
 
 

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