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  • Filipa Ribeiro

Entrevista com Lia Alves

Lia Alves é uma aluna muito querida e estimada pela nossa comunidade, constituída pelos alunos e professores da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Aos 20 anos, é veterana no curso de Estudos Clássicos, no perfil Estudos Clássicos e Portugueses; explicadora de português e latim e CEO da sua própria empresa de explicações, a Academia Astra. No seu Instagram, @es.tu.dar, aborda vários temas, entre eles métodos de estudo e organização. Neste contexto, decidimos entrevistá-la.



Filipa Ribeiro (FR): Porquê Estudos Clássicos?


Lia Alves (Lia): No 9º ano tive uma disciplina de oferta de escola (ICLC – Introdução à Cultura e às Línguas Clássicas) e apaixonei-me pelos conteúdos. Além disso, tive uma professora de Português e de ICLC (e, mais tarde, de Latim A) incrível, formada em Estudos Clássicos, que me incentivou a participar nas Olimpíadas da Cultura Clássica promovidas pela FLUL. Ganhei nos 3 anos, em todas as categorias que participei, e interessei-me em procurar o currículo do curso. Apaixonei-me logo!


FR: Como e quando começou a tua abordagem aos estudos nas redes sociais?


Lia: Foi em 2020, durante a pandemia, uns meses depois de ter o meu esgotamento nervoso. Decidi começar a partilhar algumas dicas e materiais por lá porque aprendi muito que me ajudou a ultrapassar o esgotamento, e, entretanto, o projeto cresceu.


FR: Qual é o teu método de estudo favorito e em que consiste?


Lia: Eu fico sempre um pouco reticente a responder a isto porque varia imenso. Mas os que mais uso são os de leitura ativa e de explicação ativa. A leitura ativa consiste num processo de interação com o texto: procuro identificar conceitos, exemplos e ideias-chave e criar uma linha de raciocínio. Na explicação ativa, torno-me numa professora: explico em voz alta, muitas vezes com recurso a esquemas que vou criando.


FR: Como surgiu a ideia de dares explicações e, mais tarde, de fundares a Academia Astra?


Lia: Comecei a dar explicações num centro online, a convite do organizador do projeto, em setembro de 2021. Fiquei lá um ano e entretanto saí, por razões internas da equipa. Em 2022, já tinha vários pedidos de alunos e seguidores e comecei a dar por conta própria até agora. Entretanto, comecei a receber vários pedidos para outras disciplinas e decidi criar a Academia. Abri candidaturas, fiz um processo de seleção, dei formação – e lancei em setembro de 2023 este projeto!


FR: Porquê o nome Academia Astra?


Lia: “Academia” é uma palavra de origem grega e “Astra” é uma palavra latina que se traduz para “estrelas”. Foi inspirado num provérbio latino que a minha tal professora me dedicou, no dia em que saíram as notas do exame de português: “per aspera ad astra” (“desde o pó até às estrelas”). Foi esta a inspiração do nome.


FR: Como geres tirar a carta de condução, ser estudante, católica praticante, noiva, amiga, filha, irmã e tia, explicadora e CEO da tua própria empresa aos 20 anos?


Lia: Organização de prioridades, gestão eficiente do tempo e equilíbrio! Muitas pessoas acham que eu passo 24h a trabalhar e que sou uma máquina de produtividade, o que não é de todo verdade. Por exemplo, imensas vezes durmo até tarde, faço sestas, tiro dias inteiros para não trabalhar, etc. Basicamente, mantenho um sistema de organização fixo e útil para mim (criei o meu próprio, que em breve estará disponível para compra) e aponto lá TUDO. Liberto a minha cabeça desse espaço e anoto datas, prazos, tarefas para dias específicos, lembretes, gestão financeira, registos, etc. Organizo as minhas semanas todas as segundas feiras, para saber o que necessito de fazer essa semana e em que momentos o consigo fazer. E tenho muito cuidado com a minha saúde: procuro alimentar-me bem e regularmente, beber a água necessária, dormir bem e as horas necessárias e ter momentos de descanso ao longo do dia e da semana. Isto permite-me, por exemplo, quase nunca trabalhar ou estudar ao fim de semana.


FR: Nas tuas redes sociais abordas frequentemente o tema da saúde mental e chegaste a referir que passaste por um esgotamento nervoso aos 16 anos. Como é que o ultrapassaste e o que é que aprendeste com ele?


Lia: Aprendi que não sou indestrutível e que tenho limites e necessidades humanas. Não me posso exigir a estudar imensas horas, por exemplo, ou não dormir o que é essencial. Acima de tudo, aprendi que o equilíbrio é a chave para tudo. Na altura, fiz psicoterapia e fui acompanhada, o que foi mesmo fulcral. Além disso, fui aprendendo por mim própria (através de livros, artigos científicos, etc) muito daquilo que hoje ensino.


FR: Como é ser uma estudante assumidamente católica devota e conservadora numa faculdade com ideais tão liberais generalizados pela comunidade estudantil?


Lia: Devo admitir que era  algo com que me preocupava antes de entrar na faculdade. No entanto, não tive nenhuma situação ostensivamente intolerante nem nenhuma situação desagradável, pelo menos não entre os meus colegas. Tenho tido uma experiência bastante positiva de respeito mútuo, felizmente.


FR: Já referiste que foi uma professora quem mudou o teu relacionamento com o estudo. Conta-me sucintamente essa história.


Lia: No 9º ano não estava muito interessada na escola, até me aparecer a tal professora de português/ICLC. A professora era muito rigorosa e exigente e no início não gostava dela por isso mesmo. Um dia, decidi finalmente fazer um TPC para não ter chatices e a professora teve uma reação super positiva, motivando-me a fazer mais. Consequentemente, comecei a interessar-me mais por tudo e, eventualmente, a ter um desempenho académico e interesse bem maior. Foi também importante na identificação do meu esgotamento e no processo de recuperação.


FR: Qual consideras ser o papel subjetivo dos professores na vida dos estudantes? Porquê?


Lia: Eu acho que os professores podem ter uma influência bastante positiva ou negativa na vida de cada aluno – a nível académico e pessoal. Acho, claro, que não posso culpar um professor pelo meu insucesso porque é responsabilidade minha, mas é inegável que um bom professor marca profundamente os seus alunos. Um professor não é um mero transmissor de informações e conhecimento, mas um formador para a vida.



Editado por: Inês Cândido

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