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Ensaio de Imprensa: "The Wild Flowers"

Por Mafalda Vale
Editado por Matilde Mala

O jornal O Cola teve a oportunidade de assistir ao ensaio de imprensa da peça The Wild Flowers, o mais recente projeto de Rui Neto. A peça foi concebida a partir de Hamlet, de William Shakespeare, e conta com a interpretação de Francisco Monteiro Lopes, Helena Caldeira e Miguel Amorim e com a participação em vídeo de Luís Gaspar, Ricardo Raposo, São José Correia, André Leitão, Nuno Pinheiro e Telmo Ramalho. O título, afirma o encenador, surge da ideia de retratar o próprio ator como «algo tão frágil como uma flor, perecível, mas ao mesmo tempo selvagem, vital, uma força da natureza».


Imagens de Jorge Albuquerque


Este é um projeto pop-experimental, sendo a desconstrução do clássico um tema subjacente à totalidade da peça. Ainda que ancorada no texto de Shakespeare, The Wild Flowers é uma reescrita original de Hamlet que se propõe a fazer uma reflexão sobre o ator e o seu posicionamento no mundo. Esta reflexão surge sob as mais variadas formas, como o questionamento do “espaço personagem” pelos intérpretes, que dão corpo às diferentes personagens alternadamente. A capacidade de transformação dos atores traduz-se numa experiência única para o espectador, que é levado a questionar as suas conceções sobre a representação, tal como pretendido para a leitura do espectáculo.


Os vídeos reproduzidos de fundo complementam a atuação do elenco presente no palco, levando o público a sentir-se envolvido na peça mais facilmente. O cruzamento do teatro com o vídeo contribui para a unicidade deste espetáculo, retirando-o do molde tradicional, bem como as escolhas musicais e dos figurinos do elenco principal, que não aludem à Idade Média (como poderia ser esperado, uma vez que a ação de Hamlet se desenrola por volta do século XIV), tendo, antes, um estilo mais moderno e arrojado.


O choque entre a dor que Hamlet sente pela perda do pai e a alegria que o rodeia devido ao recente casamento entre a mãe e o tio configura o pano de fundo para o enredo. Este conflito abre caminho para uma pertinente contemplação da fragilidade humana, exacerbada pelo luto, permitindo ao protagonista um momento de profunda auto-reflexão. No entanto, a revolta pelo casamento precipitado da mãe e desejo de vingança pelo homicídio do pai são contrabalançados pela vulnerabilidade em que se encontra, devido à intensidade das emoções que o consomem. Nestas circunstâncias, a amizade adquire um papel fundamental, como constatado através da relação entre o protagonista e Horácio, ex-colega da licenciatura em Filosofia. O diálogo entre estas duas personagens permite uma exploração mais aprofundada de conceitos como a amizade, a lealdade e a autoconsciência, oferecendo-nos duas perspetivas diferentes.


Com um twist de modernidade, The Wild Flowers mantém, ainda, o cariz filosófico já presente no clássico de Shakespeare. Assim, recebe-nos como um “espaço para a derivação de universos e ensaio sobre questões filosóficas”, explorando desde a ambiguidade da linguagem - em que supostas contradições comportam verdades importantes - à possível relatividade da própria verdade. A peça analisa, ainda, o tema da identidade pessoal e respetiva expressão, contendo uma forte componente de questionamento moral por parte das personagens com respeito às suas próprias ações e às dos que os rodeiam.


A pluralidade dos temas abordados, a inversão de narrativas e a constante oposição entre conceitos conferem um dinamismo à peça que a torna singular. Com uma duração de 70 minutos, The Wild Flowers estreia dia 2 de junho, no Teatro Ibérico, onde estará em cena até dia 4 de junho, integrada no Festival TEMPS D'IMAGE. Estará também em exibição no Centro Cultural da MalaPosta entre 23 e 25 de junho e na CAL – Primeiros Sintomas, entre 31 de agosto e 3 de setembro. Os bilhetes podem ser adquiridos online,na Ticketline ou no site da MalaPosta, e por e-mail, no caso da CAL, consoante a data pretendida.

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