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  • Henrique Murta

Cartas da Guerra

A Grande Guerra aos Emus teve lugar na Austrália Ocidental em 1932, quando cerca de 20.000 Emus migraram para os campos de trigo oferecidos a veteranos australianos depois da 1º Guerra Mundial.  As colheitas dos agricultores eram constantemente devastadas pelas aves não voadoras enormes. Este tormento resultou numa operação militar por parte do exercito australiano, liderado pelo Major G.P.W. Meredith, e a sua artilharia pesada contra as criaturas monstruosas. 


Os Emus foram vitoriosos. 


As seguintes cartas são alguns dos poucos documentos que sobreviveram daquela época, considerando que grande parte foram destruídos pelos invencíveis Emus, e nelas encontra-se uma visão mais detalhada e recente do espírito dos combatentes. Os personagens principais são Theresa Clotterfield e Harold Maplewood, dois nativos de Queensland que estavam noivos na época.  Seguem-se os seus pensamentos: 


“Querida Theresa, como tens estado?


Já se passou muito tempo desde a última vez que vi os teus olhos deslumbrantes ou senti o fervor gentil dos teus lábios vermelhos, e devo confessar que me assombra dia e noite, e durante o dia todo até o amanhecer, tanto quanto, se não mais. Estes monstros não voadores lutam com tal raiva e paixão que a minha coragem cai de joelhos cada vez que oiço um som que se assemelhe com o deles; as poucas vezes que me aventurei no campo de batalha para enfrentá-los frente a frente deixaram-me em estado de choque. Espero pela tua correspondência, esperançoso de que encontrarei conforto nas cartas escritas ao saber que foi a tua mão com uma intenção carinhosa. 

 

Com amor, Harold.”


“Harold, 


Como te atreves a contactar-me de qualquer forma ou para falar sobre qualquer assunto que não esteja confinado nas mais imensas desculpas? Muito antes de te teres voluntariado para ir lutar contra aves de criação enormes e grotescas, fui clara de que não estarias mais presente na minha vida. Pelo menos, não até que te desculpes profusamente pelo que fizeste. 


A não tua e também não querida Theresa.” 


“Querida Theresa,


Já me desculpei, e mais do que suficiente. Se pudesse desfazer o que fiz, certamente o faria. Talvez um dia serei capaz de voltar no tempo e impedir-me de esmagar acidentalmente a tua abóbora premiada, mas esse dia não será hoje. Enquanto escrevo, vejo à distância vários Emus a aproximarem-se das nossas trincheiras. Esta pode ser nossa última correspondência. 


Ainda te amo. Amar-te-ei até ao sol se pôr passar e para sempre. 


Com amor, Harold.”


“Halord, seu estupor idiota, 


Sabes muito bem que a nossa separação não se deve a uma abóbora esmagada, mas sim às tuas atitudes inadequadas para com a minha irmã. Tenho esperança de que esses Emus fendam o teu peito e deliciem-se com o vazio que existe lá dentro, de onde o teu coração frio há muito deixou de existir. Não me escrevas de novo.


Theresa.”


“Sra. Cotterfield,


Faço-me conhecer por meios tão impessoais como cartas escritas e, por isso, recebe as minhas sinceras desculpas. O meu nome é Tgalok, sou um Emu.  Não sou um Emu qualquer, mas sim o líder da rebelião, e ao ler a correspondência deixada no chão das trincheiras que acabamos de conquistar, não pude deixar de sentir a seriedade da sua franqueza e elegância. Permita-me a ousadia de convidá-la a tomar chá assim que os meus companheiros e eu terminemos de conquistar a Austrália.


Respeitosamente, Tgalok, o Emu. 


Post-Scriptum:  O seu correspondente anterior, o Sr. Harold Maplewood, está morto.”


“Querido Sr. Tgalok,


Fez-me corar com a sua abordagem tão direta e os modos dos Emus chamaram-me a atenção.  O quão interessante é você ler e escrever, e como é maravilhoso o facto de você ter esviscerado o Harold. Considere o seu convite para tomar chá devidamente aceite. Aguardarei ansiosamente pela sua figura emplumada em Brisbane, Queensland.


Brevemente sua, Theresa.”


Assim as cartas parecem acabar. Seria uma desilusão acabar assim para quais queres almas curiosas com o desfecho do romance entre a Sra. Clotterfiled e um Emu, se não houvesse uma fotografia tirada 3 anos depois da guerra, onde vemos a Theresa, feliz e casada com o Tgalok.  


Mais uma vez, a história prova que o amor não conhece fronteiras.

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