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Sonho Acordado

  • Diana Ildefonso
  • 7 de abr.
  • 3 min de leitura

Editado por: Margarida Ferreira

Certa noite, enquanto circulava por cada canto à procura da sua ceia, um ratinho do campo deparou-se com um edifício peculiar: um abominável prédio, de vinte andares, feito de queijo, composto por amplos buracos. Curioso e faminto, o ratinho aproximou-se da sua boa fortuna. Enquanto saboreava o queijo que integrava a parede do primeiro andar, começou a ouvir grunhidos descontentes. Inquieto, decidiu espreitar por um dos buraquinhos arquitetónicos e, discretamente, observou a discussão de um casal à mesa do jantar.

“Depois de tanto suor escorrido, esta é a recompensa que recebemos. Somos substituídos pela nossa aparência etária. Mal eles sabem que a culpa das nossas rugas e dos nossos cabelos brancos provém da fome e da vida que levamos…”. Todo aquele discurso era um ruído semântico para o ratinho, mas nada o impedia de descodificar a linguagem não verbal daqueles seres. As suas agitações corporais e o choro partilhado denunciavam as suas verdadeiras essências — aparentavam rondar a casa dos cinquenta; mas, na verdade, tinham só trinta anos. Aparentavam estar seguros por ter um teto a cobrir as suas cabeças; mas, na verdade, dividiam migalhas de pão. O ratinho apercebeu-se desta dissonância, mas, como pouco podia contribuir, decidiu continuar o seu banquete — se não fosse o seu grande achado, naquela noite também comeria restos.  

O suave material de construção do prédio atribuiu ao pequeno roedor a facilidade para o escalar. Andar após andar, a qualidade do queijo melhorava e o seu intenso odor largava um rasto olfativo que incentivava o pequeno a alcançá-lo por completo. Enquanto trepava, mantinha sempre o mesmo ritual: provava, escutava ruídos, espreitava pelos buracos do queijo e retomava a sua posição de indiferença. Esta contínua sucessão de eventos transgrediu o estatuto de invasor espacial do pequeno e, gradualmente, homogeneizou-o com o espaço opressor — que nunca, mas nunca, seria ocupado por si com tanta normalidade.

Durante o seu longo percurso, coletou um extenso espectro de interiores (dos mais miseráveis aos mais requintados). Reparou que, ao contrário dos andares superiores, os primeiros careciam de luz natural e de sentido estético — as divisões eram preenchidas por móveis de madeira podre, sofás rasgados e cacarecos. Compreendeu, por fim, que quanto mais perto da luz solar, mais iluminada era a vida dos moradores. Por estas bandas, as conversas eram muito mais agradáveis e à mesa de jantar comia-se muito mais que migalhas de pão. 

Ao alcançar o vigésimo andar e por não ter mais por onde subir, o pequeno decidiu descansar. Com a sua perspetiva panorâmica, avistou formigas descontroladas e um cartaz político, descomunal, que citava uma frase em maiúsculas: “TUDO O QUE TU COMES TENS DE PAGAR”. Subitamente, todos os inquilinos do edifício devorado dirigiram-se às suas janelas, olharam para cima e repetiram em coro a frase do cartaz. Nunca antes o ratinho vira tanto ódio junto; tanta pressão — vinda até mesmo do casal de 30 anos. 

Que dor aguda sentia aquele ratinho do campo ao observar a confusão urbana. A sua vontade era desfalecer ali, no meio de todos os seus sonhos e aspirações. Enjoava-lhe a ideia de que a sua primeira vez a ter o privilégio de desfrutar de uma refeição luxuosa marcasse o seu endividamento eterno. Detestava, ainda, que o seu micro estômago tivesse sido infetado pela gula. Babilónia tal que a pobre criatura começou a vomitar, e, para seu espanto, o que expulsava do seu interior era cimento. Ninguém parecia entender a sua dor, por mais que ele guinchasse. Tudo o que ele queria era voltar para casa e esquecer este episódio citadino — e assim o fez.

 O problema dos que pela cidade são oprimidos é não perceberem que, assim como o queijo Emmental necessita de bactérias para a formação dos seus buracos, também a metrópole precisa de um vasto conjunto de pessoas — bactérias intrusivas ou não — para se completar. Dentro deste sistema hierárquico, todos os habitantes partilham uma característica em comum — as facetas obscuras da Cidade dos Sonhos, reveladas por brechas interiores (dor e ostentação) que se cruzam de ser para ser e são apaziguadas pela perda de consciência de classe.

 
 
 

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