Paulina Chiziane: O Poder da voz feminina
- Mariana Ribeiro
- 21 de abr.
- 5 min de leitura
Editado por: Giovana Oliver
Há livros que nos ensinam. Já outros aparentam ter o propósito de nos fazer pensar. Se me perguntarem, o que eu considero mais cativante é ter com quem falar sobre as histórias que tanto nos marcam. Neste texto irei partilhar, num panorama geral, as opiniões e perspetivas que tenho relativamente à escritora moçambicana Paulina Chiziane e à sua obra O Alegre Canto da Perdiz. Com isto, considero escusado referir que irei falar de muitos outros temas.
Em 2023, tive a oportunidade de desenvolver o meu desejo de ouvir e ser ouvida por outros leitores através do Clube de Leitura da Biblioteca Fernando Piteira Santos, situado na Amadora, moderado pela Tânia Ganho. Com o tempo, fui achando cada vez mais maravilhoso entrar neste mundo dos livros comunicando com outras pessoas. Hoje em dia, sou moderadora do Clube de Leitura nessa mesma biblioteca e aprendi que o importante é falar apaixonadamente sobre as obras que tanta gente aprecia. Não é necessário ser escritor(a) ou um editor de renome. Basta apenas ser eu mesma e deixar que os outros fiquem confortáveis ao ponto de serem eles mesmos. Em março, o livro escolhido foi O Alegre Canto da Perdiz, de Paulina Chiziane. Inicialmente, pensei que o livro não causaria uma grande discussão, até chegar lá e ficar surpreendida com as opiniões que cada um tinha sobre o mesmo.
As obras de Chiziane assentam num clima lírico, fazendo-nos refletir acerca da condição feminina, do racismo, do realismo cultural, da ambição (até diria obsessão) pela conquista de uma vida melhor, entre muitos outros temas… Parece que até as histórias mais perturbadoras podem ser romantizadas quando Chiziane as escreve. Para além disso, ainda se deve ter em mente que Chiziane foi a primeira mulher em Moçambique a publicar um romance (com o seu livro de estreia Balada de Amor ao Vento). Esse ato de coragem ganhou tanto o meu respeito e o meu interesse como o de outros leitores. Porém, para perceber melhor que tipo de obras a autora escreve, prefiro recorrer à própria: “Dizem que sou romancista e que fui a primeira mulher moçambicana a escrever um romance, mas eu afirmo: sou contadora de estórias e não romancista. Escrevo livros com muitas estórias, estórias grandes e pequenas. Inspiro-me nos contos à volta da fogueira, minha primeira escola de arte”. Ou seja, é o tipo de escritora que pretende de facto desenvolver o teor de algumas histórias. Para as ler, é necessário saborear a viagem que a autora tanto deseja partilhar.
Por vezes, há momentos de “estórias” da tradição oral africana que são criados com o intuito de desenvolver um pouco estas lendas tão famosas na sua cultura. Este aspeto faz com que seja possível fazer um paralelo com a obra de Elif Shafak, A Bastarda de Istambul. Elif Shafak também sente este prazer de dar a conhecer ao leitor a sua perspetiva. Conseguimos sentir uma certa vulnerabilidade no facto de estas autoras falarem de assuntos tão presentes nos seus corações. Afinal de contas, são histórias que ouviram durante o crescimento e isso traz uma determinada necessidade de as partilhar. Inicialmente, ao ler as obras destas escritoras, há um choque literário cultural. As suas histórias vivem na ficção, mas estes instantes de verdade cultural chocam o leitor. Pelo menos, eu senti que, pela cultura ser tão diferente, não consegui conectar-me de imediato às histórias e vivências destas protagonistas.
O título O Alegre Canto da Perdiz dá muita abertura para discutir esta obra. O canto da perdiz normalmente é o chamamento do macho, para a fêmea vir acasalar. Neste livro, a escritora inverte os papéis. Delfina é quem aparece à noite a chamar os machos. A nossa Delfina é o foco e veículo de transformação ao longo do livro. E, graças a ela, acompanhamos a geração seguinte. E é exatamente assim que o livro começa: com a “louca do rio”, Maria das Dores, que é filha de Delfina, à procura dos seus filhos. Esta deambula pela cidade sem se aperceber de que eles estão à sua frente.
A obsessão de Delfina por uma vida melhor faz com que a sua própria filha seja condenada, o que a leva a casar e perder a virgindade com Simba, o bruxo da aldeia, que a maltrata e viola. Para mim, esta fase da história é a melhor. Maria das Dores é forçada a crescer e uma parte dela morre e nunca mais voltará. Nesta altura do livro, há um momento doloroso de descrição, porém, em vez de ser sobre o que aconteceu fisicamente, há uma disputa de pensamentos que surgem na cabeça da narradora, tal como: “Uma menina submetida à sádica obsessão daqueles que a deviam amar” (excerto situado na página 240).
Outro pilar muito bem estruturado pela escritora é, como já tinha referido, o racismo. Delfina pretende ser a “negra que os brancos gostam”. Passa toda a narrativa a tentar ser o que ela não é. Tem este sonho de Cinderela idealizado de que se for branca ou agir como uma, os seus problemas desaparecerão. Quando, finalmente, concretiza provisoriamente esse sonho, graças a Soares, há um momento de intolerância racial ao que ela própria é. Aliás, até chega ao ponto de tratar os seus próprios filhos negros como escravos e escolhe abertamente a sua filha mulata. Delfina radicaliza os traços de assimilada e discrimina todos os outros. A questão racial ao longo do livro é bastante notória, moldando todas as personagens.
No final, a narrativa termina de uma forma idealizada: com o perdão dos filhos pelo que a sua própria mãe lhes fez. No meu ponto de vista, é uma perspetiva cor-de-rosa para a história. No fundo, todos nós somos um pouco Delfinas. Procuramos uma vida melhor e acabamos por nos “vender” e tomar decisões que alteram todo o percurso de uma vida apenas para termos o que desejamos numa perspetiva, muitas vezes, irrealista. A grande problemática nesta personagem é que não sabe até onde ir.
São três gerações de mulheres que alcançam a imaginação do leitor, onde questões raciais, tribais, de poder, feminismo, independência e colonialismo culminam num final pouco realista, onde o perdão prevalece.
Será que Maria das Dores poderia mesmo perdoar Delfina pelas decisões que esta tomou por ela? Uma mãe que “vende” a sua própria filha por ambição meramente egoísta, destruindo a inocência e o futuro dela, terá direito ao perdão?
No final, tudo se resume à aceitação dos erros humanos das personagens e ao perdão, cabendo ao leitor discordar ou não, mas sendo este o final escolhido pela escritora, contadora de “estórias”.
De facto, um livro muito rico na sua narrativa e que nos prende e nos desperta emoções, como amor, ódio, negação, aceitação de uma cultura diferente da nossa, criando uma mistura de emoções — e é isso que o faz tão único e singular.
Para quem não o leu, ide ler e sentir emoções diversas nesta viagem de Paulina Chiziane!
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