Os perigos da pornografia
- Ana Reis
- 20 de mar.
- 6 min de leitura
Editado por: Matilde Fernandes
Um vício normalizado pela sociedade e encoberto pelos que o têm. A pornografia enraizou-se em muitos cérebros, principalmente nos dos mais jovens, e as consequências são diversas. O objetivo deste artigo não é humilhar aqueles que se encontram presos por este vício, mas sim, alertar para os seus perigos e encorajar o abandono desta prática. Antes de conhecermos os perigos associados ao vício em pornografia, é importante saber o que é. A palavra “pornografia” tem origem no grego pórne, que significa “prostituta/prostituto” mais grafé, “escrita” ou “registo”. Desta maneira, já podemos começar a entender o que realmente significa a pornografia.
Na antiga Atenas, a prostituição era legalizada e regulamentada pelo governo da polis, mas isso não significa que a vida das prostitutas e prostitutos fosse fácil. As pornai eram prostitutas de classes baixas ou, frequentemente, escravas. As leis acerca das mulheres na Antiga Grécia geralmente condenavam-nas à prostituição como forma de sustento, porque não podiam ter empregos como os homens e dependiam financeiramente deles (sem um homem para as sustentar, as mulheres tinham de se desenrascar). Desta forma, percebe-se que, apesar de ser uma prática comum, a prostituição era, raramente, uma escolha daqueles que viviam dela. Hoje, a realidade do mundo pornográfico e da indústria do sexo é muito semelhante.
Passemos então aos perigos associados ao consumo de material pornográfico, divididos por categorias.
Perigos individuais:
O cérebro humano contém um sistema de recompensas, que é responsável por libertar dopamina como forma de recompensar uma ação percebida como positiva — ou seja, ajuda a determinar ações que nos trazem prazer. Normalmente, este sistema ajuda a criar hábitos saudáveis; no entanto, quando entra em cena qualquer substância aditiva (tabaco, por exemplo), o cérebro recebe uma grande descarga de dopamina, que ativa o desejo de repetir a experiência, a fim de libertar maiores quantidades da hormona. Isto cria um ciclo, que é o chamado vício. A pornografia age da mesma forma que essas substâncias, criando uma dependência do consumidor. Além disso, a capacidade de tomada de decisão é severamente afetada.
O cérebro tem ainda um mecanismo de regulação desses hábitos que nos trazem prazer, que funciona no córtex pré-frontal. Uma das suas funções é limitar as repetições de uma determinada ação que ativa o sistema de recompensas — simplificando, o córtex pré-frontal age como um travão. Por exemplo, quando estamos a comer aquela refeição que adoramos, mas já estamos a sentir o estômago cheio, é o córtex pré-frontal que avisa: “é melhor parares de comer, antes que vomites”.
Na maioria das pessoas, esta parte do cérebro funciona normalmente, mas muitos consumidores de material sexualmente explícito têm dificuldade em utilizar esta funcionalidade do seu cérebro e não compreendem os riscos associados ao consumo desses conteúdos. Por este motivo, os consumidores de pornografia enfrentam mais obstáculos para regular as suas ações e não conseguem abandonar facilmente o hábito.
É importante ressaltar que estes são apenas alguns malefícios mais generalizados do consumo de pornografia e podem ser aplicados a qualquer outro tipo de vício. Para uma informação mais detalhada, consulta um especialista ou lê os artigos disponíveis no website Fight the New Drug.
Perigos para as relações interpessoais:
Com certeza já ouviste falar sobre como o consumo de pornografia ajuda a “apimentar” as relações amorosas. No entanto, verifica-se que a realidade não vai ao encontro dessa afirmação.
Diversos estudos científicos comprovam que o consumo de material pornográfico leva a uma diminuição na satisfação sexual dos seus consumidores e danifica as suas relações interpessoais. Isto porque, muitas vezes, o consumidor de material sexualmente explícito ignora o seu parceiro e foca-se nas fantasias exageradas que a pornografia oferece. E mesmo quando o hábito é compartilhado entre o casal, os efeitos são semelhantes.
A indústria pornográfica é o que o nome indica: uma indústria, uma fábrica. E o que faz uma indústria? Produtos. O que aparece nos vídeos não é uma representação natural da atividade sexual entre dois seres humanos, mas algo exagerado, que cria expectativas irrealistas quanto ao sexo. Todos os detalhes são pensados ao pormenor para cativar o espectador — nada do que é apresentado é natural.
Além de criar expectativas irrealistas quanto à atividade sexual, o consumo de material pornográfico está ligado ao desenvolvimento de comportamentos sexuais considerados perigosos, degradantes e abusivos. Frequentemente, os consumidores de pornografia tentam replicar com o seu parceiro aquilo que vêem nos vídeos, por mais violento ou humilhante que seja. Isto acontece porque o consumidor de material pornográfico, deixou de considerar o sexo natural como algo atrativo, e já não vê os comportamentos visivelmente incorretos como negativos, mas sim, algo a copiar para obter um maior grau de satisfação — que quase nunca é alcançado. Se conhecem a série House MD, a expressão utilizada pelo protagonista, “monkey see, monkey do”, encaixa-se perfeitamente.
Perigos para a sociedade:
Nem sempre o aspecto social é claro para os consumidores de pornografia, mas não pode ser ignorado. Os malefícios sociais da pornografia são vários e vão desde munir o tráfico sexual ao aproveitamento de crimes sexuais filmados.
As maiores vítimas do tráfico sexual são mulheres jovens, por vezes menores de idade, que são enganadas por empresas produtoras de pornografia. Geralmente, a vítima é abordada fisica ou digitalmente pela empresa, que não se apresenta como produtora de pornografia, mas sim como uma agência de modelos ou algo semelhante. A tentação da proposta aumenta com a promessa de um bom salário e até um bilhete de avião para o casting. Quando a vítima aceita a oferta e chega ao local determinado, é raptada, drogada e forçada a assinar um contrato que não pode ler. A partir daí, os sonhos de uma carreira brilhante desmoronam-se e sobreviver torna-se a principal prioridade, porque fugir nem sempre é possível.
Uma questão que surge com isto é saber se os atos filmados foram consentidos por quem os realizou. Menores de idade não podem, legalmente, dar consentimento para a gravação de cenas íntimas. Por este motivo, toda a pornografia que envolve menores de idade — mesmo que já pareçam maiores — constitui crime de abuso infantil. A União Europeia deixa esta informação bem clara: “O abuso sexual e a exploração sexual de crianças, incluindo a pornografia infantil, constituem violações graves dos direitos fundamentais, em especial do direito das crianças à proteção e aos cuidados necessários ao seu bem-estar [...]”.
Mas, mesmo se a pessoa que realiza os atos for maior de idade, é necessário dar o consentimento tanto para participar na atividade sexual como para a gravação da mesma. Para evitar problemas com a lei, a indústria pornográfica manipula e coage os seus subordinados a darem o seu consentimento. Muitas empresas produtoras de pornografia gravam entrevistas com os atores, perguntando se têm o consentimento dos mesmos para gravarem as cenas. A maioria consente, mas sob ameaça de não receber o pagamento, sofrer maus tratos, entre outras.
Frequentemente, os atores não estão em plenas faculdades mentais durante as gravações, seja pelo consumo de substâncias psicotrópicas ou por fortes descargas de adrenalina — como relata a ex-atriz pornográfica, Mia Khalifa, numa entrevista ao programa HardTalk da BBC. A ex-atriz revelou ainda que sofre consequências psicológicas como síndrome de estresse pós-traumático e que perdeu a sua privacidade.
Falando em privacidade, existe ainda o conceito de revenge porn — pornografia vingativa — em que as cenas são filmadas sem o consentimento (e muitas vezes sem conhecimento) da pessoa que aparece em vídeo. As imagens são depois partilhadas para humilhar publicamente a vítima. Esta prática, infelizmente, tem-se propagado entre as gerações mais novas.
Há solução!
Depois de teres lido tudo isto, espero que tenhas mais consciência do quão nociva a pornografia é para quem a consome, para as pessoas próximas a ela e para a sociedade. Novamente, digo que não é o objetivo deste artigo envergonhar quem consome material sexualmente explícito. Se por acaso, estás incluído neste grupo, sabe que não estás sozinho — não és um erro e há solução.
Abandonar um vício como a pornografia não é uma tarefa fácil. Sei que o principal impedimento para abandonar o vício é a vergonha, porque, se dissermos que queremos deixar de ver pornografia, significa que a vemos. Mas tem coragem! O caminho para a reabilitação só pode começar com o teu primeiro passo. Existem diversas plataformas onde podes procurar ajuda como o subreddit /NoFap, Fortify e aplicações móveis como o Brainbuddy. Podes contar ainda com o apoio de amigos ou familiares e especialistas no assunto.
A mudança começa em ti!
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