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O Talho

  • Caim (Ariana Resende)
  • 10 de abr.
  • 3 min de leitura

Editado por: Sara Coelho

Está tudo como eu me lembro. As mesmas pessoas, os mesmos sons, os mesmos cheiros e os mesmos passos. Muitos deles são lentos e despreocupados, outros parecem que têm pressa para sair dali, já que têm mais que fazer.

Esta pequena mercearia onde eu costumava vir — às vezes, até passear — faz-me sentir em casa, mas realmente nunca entendi porquê. Parece que se está a tornar repetitivo, mas não consigo parar. Não tenho porque parar. Então continuo, continuo também porque gosto de saber como as coisas vão começar e acabar.

Começo a ter olhares de enjoo toda a vez que cá volto. Sempre os mesmos aventais, sempre as mesmas fardas e sempre os mesmos sussurros. Talvez porque nunca compro nada e limito-me a vir por prazer.

Oiço uma valente facada contra um tabuleiro de cera lá ao fundo, ao pé do talho. Sempre que por lá passo nas férias da Páscoa ou do Natal, vejo pessoas sobrecarregadas de compras e presentes junto dos grandes perus, deliciosos leitões e vitelas rechonchudas.

Ponho as minhas mãos dentro dos bolsos castanhos e ando em frente até lá chegar, parando à frente da senhora que já estava a ser servida. Que pena ver a cortadora com olhos tão tristes e cansados, embora ela tenha uma das profissões mais fascinantes… Parece que já está tão habituada que lhe perdeu a sensibilidade.

Dou um passo em frente depois de a outra se ir embora e fico a olhar para os corpos perfeitamente cortados dentro da vitrine.

— Olá, em que é que o posso ajudar?

Ela pergunta com uma voz simpática, porém forçada, obrigando a que os meus olhos sedentos se dirijam a ela lentamente.

— Gostava que me cortasse um grande pedaço de vaca em cinco partes.

A mulher olhou para mim durante uns segundos e, com desdém, silenciosamente retrocedeu.

— Só se conseguiu decidir agora, é? — diz ela baixinho, à espera de que eu não a ouvisse. Mantive-me calado enquanto ela pegava na carne e a punha no grande tabuleiro branco, levantando o seu facalhão coberto de sangue.

Zás! Lá vai uma. O sangue salpica contra o avental da mulher enquanto a sua cara sem emoção se fixa na carne. Os meus lábios sorriem enquanto a mão dela faz pressão na carne, esguichando ainda mais sangue.

Que bonito, tão vermelho… fazem lembrar os lábios da minha amada, de quem tanto gostava. Nenhum desgosto ficou, a lua vai longe e as minhas lágrimas já não batem na costa. Que inveja tenho.

Zás! Lá vai outra. Não importa que seja carnificina se nos garante sobrevivência, certo?

Zás! A carnificina às vezes também pode ser bela quando a queremos ver dessa forma; quando necessitamos da sua paixão. 

Aprendi tanto com ela, com a minha amada, só de pensar nela… que perplexidade, que perfeita a pele pálida dela.

Zás! Mas tudo depende do que os teus profundos desejos incutem no seu sentido estético. Talvez, para muitos, ver pedaços de carne a serem separados uns dos outros não acalma nem excita, muito menos à minha amada.

Zás! O último golpe fez-me tremer de emoção. Os meus boxers humedecem e sinto que os meus olhos ficam brancos antes de olhar para o teto gasto da pequena mercearia.

Depois de a minha amada ter ido embora… o gosto intensificou, parece que piorou mesmo. Respirei fundo e olhei novamente para a mulher que me dá a carne num saco de plástico, que se virou de costas, desaparecendo dentro da sala onde trabalha.

Amanhã terei de voltar.


 
 
 

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