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O Segredo dos Pássaros: Entrevista

Entrevista a Lia, assistente de realização da curta-metragem “O Segredo dos Pássaros” Por Ana Caetano


Na sequência do Festival 48H Lisboa, o Jornal O Cola entrevista Lia Rodrigues - alumni da Faculdade de Letras e assistente de realização da curta-metragem O Segredo dos Pássaros que competirá no Festival dia 14 de maio. Numa breve conversa viajamos por entre o processo criativo, desafios, falta de apoios e a paixão pela arte cinematográfica. O Segredo dos Pássaros estreia dia 14 de maio às 14:30 no Cinema São Jorge.



Ana - Como surgiu a onze.um?

Lia - Inicialmente, a equipa seria outra, mas, devido a alguns contratempos, a Márcia (realizadora) e o Galhofa (produtor executivo) decidiram montar uma equipa nova. A Márcia já me conhece há algum tempo e sempre tivemos vontade de trabalhar juntas, mas nunca havia surgido a oportunidade. No entanto, nesta nova tentativa de montar a equipa, recebi um áudio dela pelo Instagram a perguntar se me queria juntar ao seu grupo para participar no 48horas. Eu disse logo que sim — isto um mês e meio antes do festival. Acho que, quando entrei, ainda eram apenas 8 elementos, mas penso que uma hora depois já tínhamos tudo fechado, por meio de amizades feitas no meio profissional ou rede de contactos. Quando juntámos a equipa toda, não tínhamos sequer ideia de qual poderia ser o nosso nome. Temos 24 elementos, então decidimos que cada um daria uma ideia e o nome que tivesse mais votos seria o que nos iria denominar. No final de tudo, cada um votou na sua própria ideia e o resultado foi que cada nome tinha 11,1% dos votos na totalidade. Nem perdemos mais tempo e assumimos o onze.um como nome. Honestamente, acho que não teríamos arranjado nada melhor.


Ana - A curta O Segredo dos Pássaros faz parte do Festival 48h Lisboa, em que, basicamente, todo o processo criativo da criação de um projeto cinematográfico tem de ser feito numa janela temporal de 48 horas. Como foram estas 48h? Como é que a equipa se organizou e distribuiu todo o processo?

Lia - Foi a experiência mais intensa e desafiadora pela qual passei até agora, mas estupidamente recompensadora. Não havia muito intervalo para descanso, acho que ao todo foram quase 60 horas sem dormir. Havia sempre alguma coisa para fazer, e, visto que estávamos a correr contra o tempo, tudo tinha de ser feito dentro da janela temporal que tínhamos organizado previamente. Um filme tem 3 fases: pré-produção, produção e pós-produção. Nós recebíamos os elementos obrigatórios do filme na sexta-feira às 20h, então os guionistas estavam preparados para começar a trabalhar assim que fossem sorteados. A pré-produção começava assim que se tivesse ideia do que iam escrever, para podermos ter tempo de arranjar tudo a tempo das gravações. Portanto, a madrugada de sexta-feira estava reservada para o guião e preparação do dia de rodagem, que seria o dia todo de sábado mais a madrugada. O resto do dia de domingo estava reservado para a pós-produção. Enquanto se estava a gravar, os ficheiros iam simultaneamente sendo descarregados, para que os editores pudessem ter uma ideia de como o filme devia ser montado; enquanto o filme estava a ser editado, havia dois grandes talentos a criar a soundtrack original para o filme, já que não podíamos ter músicas já existentes, devido aos direitos de autor. Claro que o canal de contacto entre a equipa estava sempre aberto caso houvesse algum imprevisto para resolver, tínhamos 24 mentes a pensar numa possível solução.



Ana - Uma personagem, um objeto e uma frase são os elementos obrigatórios que têm de constar nos projetos em competição. Quando se tem 48 horas apenas, os elementos obrigatórios são uma ajuda ou um desafio?

Lia - Neste caso, acho que os elementos obrigatórios serviram mais como fio condutor da dinâmica do que qualquer outra coisa. Normalmente, diria que o processo criativo não deve ser limitado, mas, nas circunstâncias em que nos encontrávamos, já foi extremamente difícil fazer com que o guião estivesse coeso e interessante, então diria que ter a presença destes elementos foi uma ajuda enorme. Assim, a equipa de guionistas tinha um caminho a seguir que evitasse desvios, visto que o tempo era tão curto.


Ana - Como assistente de realização, qual foi, para ti, o maior desafio neste projeto? E o maior desafio para a equipa?

Lia - O maior desafio neste projeto foi tentar estar a par de tudo que se passava. Como assistente de realização, tenho de estar atenta a todos os impasses, e fazer isto sem dormir é ainda mais desafiante. No entanto, tudo o que se passava me deixava ainda mais motivada para continuar. Não sei mesmo explicar, mas estar a trabalhar e ver um take bem feito é estupidamente gratificante. Acho que posso dizer o mesmo da equipa, toda a gente era apaixonada pelo que estava a fazer. Estar atento a tudo que se passava, com o cansaço em cima, foi mesmo o maior desafio. Sou suspeita, mas fizemos um belo trabalho conjunto, dadas as circunstâncias. Amo-vos, onze.um, criámos ali uma bela e grande família.


Ana - Lidar com contratempos já é bastante desafiante quando não há uma timeline propriamente dita para a realização de um projeto cinematográfico. Como se lida com os contratempos quando se tem 48h para fazer tudo?

Lia - Os contratempos são muito normais na indústria, aliás, os meus professores da área dizem que a nossa maior habilidade deve ser resolver imprevistos. Foi exatamente isso que vi acontecer durante o fim de semana em que estivemos a gravar. Eu era assistente de realização, mas se a assistente de produção estivesse ocupada e tivesse mais coisas para fazer, eu ajudava com o que podia. Estávamos a contar com uma atriz, e ela não apareceu, então quem assumiu o posto foi a Make Up Artist da equipa — grande Raquel — e, enquanto, ela se arranjava para as cenas, eu também a ajudava a maquilhar os outros atores. Isto aconteceu o tempo todo durante o projeto, pessoas a fazerem algo fora da sua área para podermos agilizar o nosso tempo da melhor maneira possível. Sempre aparecia alguém que arranjava uma solução para o que fosse. Realmente, 24 mentes pensam melhor que uma!


Ana - Falemos de apoios: Todos os custos associados à produção do filme a concurso são da inteira responsabilidade do participante. Qual é a sensação de investir tempo e dinheiro num projeto sem qualquer garantia de retorno?

Lia - Pois, infelizmente, na indústria em que estamos não há outra maneira de começar. Tens sempre de dar tudo de ti até à exaustão antes de começares a ver retribuição de qualquer forma. Acho que se não houvesse paixão pelo que se faz, ninguém estaria ali. Fazemos o que fazemos por amor, e qualquer fruto disso é o retorno de que estamos à espera.



Ana - Sentes que há uma falta de apoio generalizada por parte de instituições e entidades promotoras de festivais de cinema?

Lia - Com toda a certeza há uma grande falta de apoio, não só das instituições como do público-alvo também. No futuro, gostava de ver pessoas sem medo de começar a fazer filmes ou seguir uma carreira nos audiovisuais. Eu acredito firmemente que Portugal tem imenso talento bruto, mas não é possível explorar isso por falta de incentivo. Portanto, digo, se não há uma indústria, vamos criá-la. A nossa geração está muito mais investida no potencial que pode ser oferecido. Então, acho que cada vez mais vai haver pessoal a lançar projetos brutais, e conforme isso for acontecendo, que as entidades, instituições e o público português estejam dispostos a apostar muito mais no nosso trabalho.


Ana - O que nos podes dizer sobre O Segredo dos Pássaros?

Lia - É uma curta de 5 minutos, por isso há pouco que posso dizer sem estragar a experiência! Ahah, mas posso dizer que é um plot muito bem explorado, no tempo limitado que tem. Em termos técnicos, fotografia, banda sonora, atuação entre outros, está tudo impecável.


Ana - Como Alumni da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, é um orgulho imenso ver-te crescer na área que te apaixona. O que se segue depois do festival? Há algum projeto em mãos?

Lia - Segue-se muito, depois deste festival! Não tenho intenções de abrandar, não agora. Como ainda não acabei o curso de realização, tenho uns projetos por sair, entre eles um videoclipe, um spot publicitário e mais uma curta metragem! Depois, quando tiver a agenda mais livre, vou investir tudo o que tenho no projeto de minha autoria que se chama ‘’Mind Displayed’’, onde vou recriar os meus daydreamings em obras audiovisuais, entre outros inúmeros projetos que estão na gaveta e hão de ser desenvolvidos.


Ana - Obrigada pelo teu tempo e por aceitares dar esta entrevista!

Lia - Ora essa, o prazer foi todo meu! Gratidão mil por terem proposto este convite, fi-lo de coração cheio! Continuem a investir no que querem. ❤️


Ana Caetano



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